Enquanto o debate político brasileiro segue concentrado na oposição entre direita e esquerda, as duas maiores potências do planeta caminham em outra direção: a do pragmatismo. A avaliação é do filósofo e escritor Pedro de Medeiros, que analisa como a polarização ideológica no Brasil tem servido mais como instrumento de poder do que como base real para políticas públicas eficazes.
Segundo Medeiros, no cenário nacional, direita e esquerda deixaram de funcionar como correntes consistentes de pensamento e passaram a operar como marcas políticas. “No Brasil, a ideologia virou um rótulo identitário, não um guia de ação. Ela é usada para fidelizar eleitores, criar inimigos e justificar decisões que, na prática, são movidas por conveniência e cálculo de poder”, afirma.
O especialista destaca que esse uso instrumental da ideologia produz uma política ruidosa, moralizada e pouco produtiva. “Discute-se quem está do lado certo da história enquanto problemas estruturais seguem intocados: infraestrutura deficiente, baixa produtividade, educação frágil e um Estado caro e ineficiente”, diz Medeiros.
Para ele, a sensação de intenso debate público cria uma ilusão de avanço, quando, na realidade, o país permanece paralisado.
Na contramão desse modelo, Estados Unidos e China oferecem exemplos claros de pragmatismo político. “Os Estados Unidos, símbolo do liberalismo, não hesitam em usar o Estado para proteger setores estratégicos, subsidiar indústrias e garantir sua competitividade global. Já a China, oficialmente socialista, utiliza mecanismos de mercado, metas de produtividade e competição com extrema frieza estratégica”, analisa. Em ambos os casos, segundo Medeiros, a ideologia cede espaço ao interesse nacional.
Para o filósofo, pragmatismo não significa ausência de valores ou oportunismo político, mas sim a capacidade de avaliar políticas públicas pelos resultados concretos que entregam à sociedade. “Pragmatismo é perguntar menos se uma decisão agrada à própria bolha ideológica e mais se ela funciona. É aceitar que boas soluções não pertencem a um espectro político específico”, afirma.
No Brasil, porém, ocorre o movimento inverso. “Transformamos ideologias em dogmas e sacrificamos decisões eficazes para preservar narrativas. Falta coragem política para admitir que algumas soluções funcionam independentemente de sua origem ideológica”, diz Medeiros. Ele ressalta que governar exige lidar com escolhas imperfeitas, e não a repetição automática de manuais partidários.
Para Pedro de Medeiros, o impasse brasileiro não está em escolher entre direita ou esquerda, mas em definir que tipo de liderança o país deseja. “O Brasil precisa decidir se continuará refém de líderes que usam a ideologia como disfarce para projetos pessoais ou se exigirá lideranças pragmáticas, capazes de prestar contas à realidade e não apenas à narrativa”, conclui.