Sistema que usa verde, amarelo e vermelho facilita a leitura nutricional e pode ajudar consumidores a fazer escolhas mais conscientes no dia a dia
A rotulagem de alimentos com cores, como verde, amarelo e vermelho, tem ganhado espaço como estratégia para facilitar escolhas mais saudáveis. Um estudo publicado na revista científica Current Psychology, intitulado “Exploring the impact of color-coded labeling on consumer perception: the role of positive and negative information in food choice”, mostra que esse tipo de sinal visual permite que consumidores compreendam mais rapidamente o perfil nutricional dos produtos e tomem decisões mais conscientes sobre o que consomem. A proposta surge em meio ao avanço de problemas como sobrepeso e obesidade e à dificuldade de interpretar rótulos tradicionais, geralmente baseados em números e termos técnicos.
Leitura rápida
Na prática, o modelo mais conhecido é o chamado sistema “semáforo”. Nele, o verde indica menor presença de nutrientes críticos, como açúcar, gordura ou sal, enquanto o vermelho sinaliza maior quantidade desses nutrientes. A proposta não é substituir a tabela nutricional obrigatória, mas tornar a leitura mais imediata no momento da compra.
Segundo o estudo publicado na Current Psychology, consumidores que analisaram produtos com rotulagem colorida fizeram avaliações mais consistentes e mais próximas do perfil nutricional real dos alimentos em comparação com modelos tradicionais baseados apenas em texto e números.
A rotulagem com cores facilita a compreensão das informações nutricionais ao transformar dados técnicos em sinais visuais rápidos. Isso se torna ainda mais relevante em situações de compra, normalmente feitas em poucos segundos e com pouca atenção à leitura detalhada dos rótulos.
“As cores simplificam uma informação que normalmente é complexa. Em vez de exigir leitura e interpretação de tabelas nutricionais, o consumidor consegue identificar rapidamente se um produto é mais ou menos saudável”, afirma Rafael Appel Flores, mestre em neurociências da Universidade Federal de Santa Catarina.
Outro ponto importante é a ampliação do acesso à informação. A rotulagem visual facilita a compreensão inclusive para pessoas com menor nível de letramento nutricional, permitindo que mais consumidores entendam os possíveis riscos associados ao consumo frequente de determinados produtos.
No Brasil, esse debate se relaciona com as regras estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da RDC nº 429/2020 e da Instrução Normativa nº 75/2020. As normas introduziram a rotulagem frontal de advertência para alimentos com excesso de açúcar adicionado, sódio e gordura saturada. Embora o modelo brasileiro utilize o símbolo da lupa, e não cores, o objetivo segue a mesma lógica: tornar a identificação dos riscos nutricionais mais rápida e acessível para a população.
Efeito cerebral
A influência das cores está ligada à forma como o cérebro processa informações visuais. Elementos gráficos costumam ser interpretados mais rapidamente do que textos, o que ajuda a explicar o impacto imediato desse tipo de rotulagem nas decisões de consumo.
“Isso acontece porque imagens e estímulos visuais são processados mais rapidamente e são mais memoráveis do que palavras. O artigo mostra que elementos visuais (como cores) têm prioridade no processamento cognitivo e influenciam decisões antes mesmo da leitura detalhada. Na prática: o consumidor ‘vê’ antes de ‘pensar’”, afirma Appel.
A própria pesquisa da Current Psychology relaciona esse efeito ao fenômeno conhecido como “superioridade da imagem”, discutido também no artigo “Distinctiveness, not dual coding, explains the picture-superiority effect”, publicado no Quarterly Journal of Experimental Psychology, que aponta a vantagem de estímulos visuais na memorização e no processamento de informações.
Outro ponto central é o peso maior que os sinais de alerta exercem sobre a decisão. No estudo da Current Psychology, o vermelho teve impacto mais forte do que o verde na percepção dos participantes, indicando que informações associadas a risco tendem a captar mais atenção.
“O cérebro humano dá mais peso a perdas e riscos do que a ganhos. Rótulos vermelhos geram avaliações mais intensas (negativas) do que os verdes geram avaliações positivas. Em termos evolutivos, faz sentido: identificar ameaças rapidamente sempre foi mais importante para a sobrevivência do que identificar benefícios”, explica Appel.
Esse comportamento encontra respaldo em evidências do artigo “The role of selective attention in the positivity offset: Evidence from event related potentials”, publicado na revista PLOS ONE, que descreve o chamado viés de negatividade, no qual estímulos negativos influenciam mais intensamente o processamento cognitivo do que os positivos.
Percepção alimentar
A influência das cores vai além do rótulo nutricional e alcança a própria percepção dos alimentos. Um estudo publicado na Scientific Reports, intitulado “The effect of food packaging color on calorie estimation in virtual reality”, mostrou que embalagens vermelhas levam consumidores a estimar maior quantidade de calorias e a reduzir a intenção de compra, enquanto embalagens verdes aumentam a percepção de saudabilidade e favorecem a escolha do produto.
Segundo o estudo “Brain activity characteristics of RGB stimulus: an EEG study”, publicado na Scientific Reports, e a pesquisa “Frontal alpha and parietal theta asymmetries associated with color-induced emotions”, da revista Brain Research, a percepção de cores influencia diretamente o comportamento humano e as respostas emocionais. Os trabalhos mostram que diferentes cores ativam regiões cerebrais distintas e podem provocar sensações associadas a alerta, segurança ou prazer, o que ajuda a explicar por que sinais visuais têm impacto imediato nas decisões de consumo.
Impacto saúde
Pesquisas também mostram que a rotulagem frontal com cores atua como um estímulo comportamental, conhecido como “nudge”, capaz de influenciar não apenas a percepção de saúde, mas também o valor atribuído ao alimento. O estudo “From attributes to value: Neural correlates of a front-of-package label on food decision-making – An fMRI study”, publicado na revista PLOS One, identificou que rótulos com cores alteram a percepção de saúde, sabor e até a disposição de pagamento pelos produtos.
Esse conjunto de evidências reforça o potencial da rotulagem por cores como ferramenta de saúde pública, especialmente em um cenário marcado pelo crescimento de doenças crônicas relacionadas à alimentação. Ao simplificar a informação nutricional, esse modelo pode ajudar consumidores a tomar decisões mais conscientes em situações rápidas, como compras em supermercados.
Ainda assim, especialistas apontam que a estratégia não resolve o problema de forma isolada. A rotulagem com cores facilita a interpretação, mas não substitui a educação nutricional nem elimina fatores como preço, hábito e conveniência.
“Nesse sentido, elas funcionam como um filtro inicial que ajuda o consumidor a evitar opções menos saudáveis de forma prática. No entanto, a perda de peso depende de fatores mais complexos, como controle de porções, composição da dieta e hábitos ao longo do tempo”, explica Renata Steinbach, diretora de marketing da Dr. Fisiologia.
O avanço desse modelo depende, portanto, de sua integração com políticas públicas e iniciativas educacionais que ampliem o entendimento sobre alimentação saudável.
“Apesar de eficaz, a rotulagem por cores não resolve o problema sozinha. [...] É uma ferramenta útil, mas depende de um ecossistema maior de educação e políticas públicas”, conclui Appel.
Ao traduzir informações complexas em sinais visuais simples, a rotulagem por cores se consolida como uma ferramenta promissora para orientar escolhas alimentares e ampliar o acesso à informação nutricional.