 |
| Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP |
Levantamento com mais de 5,5 mil mulheres revela sintomas-chave da transição menopausal
Um estudo recente publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology indica que os sintomas mais marcantes da perimenopausa — fase de transição que antecede a menopausa — nem sempre são percebidos ou tratados no momento certo. A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Monash, na Austrália, acompanhou mais de 5,5 mil mulheres entre 40 e 69 anos e mostrou que quase 40% das participantes nessa fase conviviam com sintomas vasomotores moderados a graves, como ondas de calor e suores noturnos, sem receber tratamento adequado.
“A perimenopausa pode começar antes das alterações visíveis no ciclo menstrual, especialmente na fase inicial da transição menopausal. Nessa etapa, já ocorrem flutuações hormonais importantes que podem gerar sintomas como ondas de calor, alterações de humor e distúrbios do sono, mesmo com ciclos ainda regulares. Por isso, hoje sabemos que olhar apenas para o padrão do sangramento é insuficiente”, explica Isabelle Rodrigues dos Santos, doutora em Ciências com ênfase em Fisiologia da Reprodução pela FMRP-USP e Diretora de Operações na Dr. Fisiologia.
O que são e quais são os sinais
A menopausa é uma etapa natural da vida da mulher e marca o fim definitivo dos ciclos menstruais. Ela é confirmada após 12 meses consecutivos sem menstruação e ocorre, em média, por volta dos 50 anos. Esse processo está diretamente ligado à redução progressiva da produção de estrogênio pelos ovários, hormônio que exerce papel central em diversas funções do organismo feminino, como a saúde óssea, cardiovascular, metabólica e reprodutiva (The Lancet).
Antes da menopausa propriamente dita, a mulher passa pela perimenopausa, um período de transição que pode começar anos antes e variar bastante em duração e intensidade. Durante essa fase, os níveis hormonais oscilam de forma irregular, o que explica a diversidade de sintomas relatados. Alterações no ciclo menstrual costumam chamar atenção, com intervalos mais curtos ou mais longos entre as menstruações, além de mudanças no fluxo, que pode se tornar mais intenso ou mais leve.
No entanto, o estudo da Universidade Monash reforça que os sintomas vasomotores — como ondas de calor e suores noturnos — são os sinais mais característicos da perimenopausa, sendo até cinco vezes mais frequentes do que no período pré-menopausa. A secura vaginal também se destaca, aparecendo com maior intensidade nessa fase e impactando a saúde sexual e o conforto no dia a dia.
Além desses sinais, muitas mulheres relatam insônia, alterações de humor, ansiedade, fadiga, dificuldade de concentração e lapsos de memória (JAMA Network). “A presença de sintomas típicos em mulheres a partir dos 40 anos deve levantar a suspeita clínica de perimenopausa, mesmo sem irregularidade menstrual”, informa Isabelle.
Embora comuns, esses sintomas nem sempre são associados à transição menopausal, o que pode atrasar o diagnóstico e o início de um cuidado adequado. A pesquisa aponta ainda que a perimenopausa pode começar mesmo em mulheres que mantêm ciclos menstruais regulares, desde que apresentem sintomas intensos e mudanças no padrão do fluxo, o que amplia a necessidade de uma avaliação baseada no conjunto de sinais e não apenas no calendário menstrual.
“A intensidade dos sintomas varia pela sensibilidade individual às flutuações hormonais e também por fatores como histórico de transtornos do humor, síndrome pré-menstrual, estresse, tabagismo, IMC mais elevado e ansiedade. Isso mostra como a experiência da perimenopausa é realmente individual”, esclarece Isabelle.
Tratamento hormonal
Entre as opções disponíveis para aliviar os sintomas da perimenopausa e da menopausa, a terapia hormonal continua sendo uma das mais eficazes, especialmente para ondas de calor, suores noturnos e secura vaginal. Esse tratamento consiste na reposição dos hormônios que o organismo passa a produzir em menor quantidade, principalmente o estrogênio e, em alguns casos, a progesterona.
Evidências científicas (Journal of Clinical Medicine, Aging Cell Jama Network — 2017 e 2022) mostram que, para mulheres saudáveis, com menos de 60 anos ou que estejam há menos de 10 anos da menopausa, os benefícios da terapia hormonal tendem a superar os riscos. Entre os efeitos positivos estão a melhora do sono, do humor e da qualidade de vida, além da proteção da saúde óssea, com redução do risco de osteoporose e fraturas. A terapia também pode contribuir para o alívio de sintomas geniturinários, como dor durante a relação sexual e desconforto vaginal.
Por outro lado, o tratamento hormonal não é indicado para todas as mulheres. Em alguns casos, pode haver aumento do risco de trombose, acidente vascular cerebral ou câncer de mama, dependendo do tipo de hormônio utilizado, da dose, da via de administração e do histórico de saúde da paciente. Por isso, a decisão deve ser sempre individualizada, baseada em avaliação médica criteriosa e em diálogo aberto sobre riscos, benefícios e expectativas.
Além da terapia hormonal, existem alternativas não hormonais que podem ajudar no controle dos sintomas, como medicamentos específicos para ondas de calor e estratégias focadas no bem-estar físico e emocional. O acompanhamento profissional é fundamental para definir a melhor abordagem em cada caso. “Não existe um tempo máximo universal já que para muitas mulheres, alguns anos são suficientes, enquanto outras podem precisar de uso mais prolongado. O mais importante é a decisão compartilhada, com acompanhamento regular e ajustes conforme o perfil de risco e a resposta ao tratamento”, acrescenta Isabelle.
Exercício físico e estilo de vida
Independentemente do uso ou não da terapia hormonal, mudanças no estilo de vida têm papel importante na qualidade de vida durante a perimenopausa e a menopausa. A prática regular de exercícios físicos é uma das estratégias mais recomendadas, com benefícios que vão além do controle dos sintomas (The Lancet Diabetes & Endocrinology e Maturitas).
A forma como a mulher se alimenta e vive o dia a dia influencia diretamente a intensidade dos sintomas da perimenopausa e da menopausa. Dietas mais equilibradas, com frutas, verduras e gorduras de boa qualidade, costumam estar associadas a menos ondas de calor e a uma sensação maior de bem-estar, enquanto o consumo frequente de alimentos ultraprocessados pode agravar esses sintomas.
Já as atividades físicas, como caminhadas, musculação, pilates, yoga e exercícios aeróbicos ajudam a manter o peso corporal, fortalecem os ossos e os músculos, e contribuem para a saúde cardiovascular. Estudos também indicam que o exercício físico auxilia na regulação do humor, reduz sintomas de ansiedade e depressão e melhora a qualidade do sono, que costuma ser afetada nessa fase.
“As recomendações internacionais indicam pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, associados a exercícios de fortalecimento muscular duas vezes por semana, para mulheres neste período, como mostrado na revisão da The Lancet de 2022”, indica Isabelle.
O movimento regular tem impacto positivo no metabolismo e na resposta inflamatória do organismo, aspectos que tendem a se alterar com a queda dos níveis de estrogênio. Associado a uma alimentação equilibrada, sono adequado e manejo do estresse, o exercício se torna um pilar essencial do autocuidado durante a transição menopausal. O mais importante é que a atividade seja adequada à rotina de cada mulher e possa ser praticada de forma contínua.
Falar sobre menopausa ainda é tabu
Apesar de afetar todas as mulheres que chegam à meia-idade, a perimenopausa e a menopausa ainda são cercadas por silêncio e desinformação. Muitas mulheres convivem por anos com sintomas que comprometem o bem-estar físico e emocional sem buscar ajuda, seja por não reconhecerem os sinais, seja por receio de estigmas associados ao envelhecimento feminino.
“A perimenopausa e a menopausa ainda são pouco discutidas com profundidade, o que faz muitas mulheres se sentirem sozinhas ou incompreendidas. Quando a informação correta circula e as experiências são validadas, os mitos vão caindo. Mas acredito que esse cenário esteja mudando, com mais iniciativas surgindo e o tema ganhando mais espaço na mídia, e espero que isso traga ganhos sempre positivos para as mulheres”, conclui Isabelle.
Dr. Fisiologia — Assessoria de Comunicação da FMRP-USP
E-mail: assessoria@drfisiologia.com.br
Celular/WhatsApp: (16) 99136-5048