Com mais de 90% de chance de atingir intensidade muito forte, fenômeno pode favorecer ondas de calor, queimadas, chuvas extremas e aumento da dengue
A intensificação do El Niño acende um alerta que vai além das mudanças no tempo. O aumento das temperaturas, a fumaça das queimadas, as chuvas irregulares e as enchentes podem afetar a saúde, agravar doenças crônicas e aumentar a procura por atendimento nos próximos meses.
A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, aponta mais de 90% de chance de o El Niño alcançar intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Para o trimestre de outubro a dezembro, há 69% de possibilidade de o episódio superar a intensidade dos eventos registrados desde 1950.
A expressão “Super El Niño” ganhou espaço para descrever esse cenário, mas não faz parte das classificações oficiais. A Organização Meteorológica Mundial utiliza as categorias fraco, moderado, forte e muito forte.
No Brasil, o Painel El Niño 2026-2027 confirmou a formação do fenômeno em junho e indica sua permanência, pelo menos, até o início do próximo ano. A previsão aponta temperaturas acima da média em grande parte do país, mais chuva em áreas da Região Sul e redução das precipitações em outras regiões.
“É preciso separar alerta de alarmismo. Um El Niño muito forte aumenta a possibilidade de determinados eventos, mas não significa que todas as regiões terão os mesmos efeitos. Para a saúde, o mais importante é usar a previsão para orientar a população e preparar os serviços antes que os atendimentos aumentem”, explica Roberto Rangel, médico de Família e Comunidade, professor universitário e gestor público.
Fumaça e calor exigem atenção
O informe mais recente do Ministério da Saúde, publicado em 25 de agosto, identificou 775 municípios com concentrações de partículas microscópicas acima do valor diário recomendado pela Organização Mundial da Saúde por pelo menos dois dias consecutivos.
Conhecidas como MP2,5, essas partículas estão presentes na fumaça das queimadas e em outras fontes de poluição. Por serem muito pequenas, conseguem chegar às partes mais profundas dos pulmões.
Segundo o levantamento, 65,2 milhões de pessoas viviam nos municípios atingidos, entre elas 3,7 milhões de crianças de até 4 anos e quase 11 milhões de idosos. A exposição pode aumentar sintomas respiratórios, agravar doenças cardiovasculares e elevar o número de internações.
O levantamento não atribui diretamente a situação ao El Niño, mas mostra a dimensão da população vulnerável à piora da qualidade do ar. Temperaturas elevadas e períodos de seca podem aumentar o risco de incêndios florestais.
Nos dias de fumaça intensa, a recomendação é reduzir as atividades ao ar livre, evitar exercícios físicos pesados, aumentar a ingestão de líquidos e acompanhar os alertas sobre a qualidade do ar. Quando for necessário sair, máscaras PFF2 ou N95, bem ajustadas ao rosto, oferecem maior proteção contra as partículas.
O calor também aumenta o risco de desidratação, insolação e agravamento de problemas cardíacos, respiratórios e renais. Fraqueza, tontura, dor de cabeça, náusea e cãibras são sinais de atenção. Confusão mental, convulsões e perda de consciência podem indicar uma emergência.
Dengue pode voltar a avançar
O Ministério da Saúde também alertou estados e municípios para a possibilidade de aumento da transmissão de arboviroses. Uma projeção do InfoDengue, da Fiocruz, estima que o Brasil poderá registrar cerca de 1,7 milhão de casos de dengue em 2027.
A estimativa pode ser atualizada e não representa uma previsão definitiva. O aumento das temperaturas e das chuvas em algumas regiões pode favorecer a circulação do Aedes aegypti. Nas áreas de seca, o armazenamento inadequado de água também cria condições para novos focos do mosquito.
Eliminar recipientes que acumulem água, manter caixas-d’água vedadas e observar os primeiros sintomas continuam sendo medidas importantes. Dor abdominal intensa, vômitos frequentes, dificuldade para respirar, tontura e sangramentos são sinais de alerta para as formas graves da dengue.
Chuvas intensas trazem outros riscos
Nas áreas atingidas por chuvas fortes e enchentes, o contato com água contaminada pode aumentar o risco de leptospirose, hepatite A e doenças diarreicas. Também crescem as ocorrências de traumas, acidentes com animais peçonhentos e sofrimento emocional entre as pessoas afetadas.
Crianças pequenas, idosos, gestantes e pessoas com doenças cardíacas, respiratórias, renais ou imunológicas precisam de atenção especial durante eventos extremos.
“Cada território terá um risco diferente. Onde houver calor e seca, a atenção estará na hidratação, na fumaça e nas queimadas. Onde houver chuvas intensas, será necessário cuidar da qualidade da água e prevenir doenças e acidentes. Informação correta permite agir antes que o problema se agrave”, afirma Roberto Rangel.