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| Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo |
Escassez chega a funções intermediárias dos canteiros e amplia espaço para técnicos em Edificações em meio ao avanço das obras de infraestrutura
A construção civil abriu 180,4 mil postos de trabalho com carteira assinada no Brasil entre janeiro e julho deste ano. O avanço das contratações ocorre, porém, num setor em que quase sete em cada dez empresas dizem ter dificuldade para contratar ou reter trabalhadores.
O problema não está restrito à falta de engenheiros ou de mão de obra para a execução das obras. A escassez alcança também uma faixa intermediária dos canteiros, formada por profissionais experientes, como mestres de obras e encarregados, responsáveis por coordenar equipes e acompanhar os trabalhos. Nesse espaço, técnicos em Edificações vêm assumindo novas responsabilidades.
É o que Fernando Ribeiro, coordenador técnico do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, observa no contato da instituição com construtoras e outras empresas que recebem seus estudantes para estágios.
“O principal gargalo parece estar mais na base da pirâmide do que no topo. Na ausência de mestres de obras e encarregados com formação sólida, é o técnico em Edificações que, na prática, vem assumindo parte dessas funções no canteiro”, afirma.
A percepção coincide com os dados da Sondagem Empresarial da FGV IBRE. No fim de 2025, 69,1% das empresas da construção relataram dificuldade para contratar ou reter trabalhadores. Em um ano, o percentual subiu 8,7 pontos, ante 60,4% no fim de 2024.
A pressão ocorre justamente quando o setor acelera as contratações. Dos 180,4 mil empregos formais criados pela construção nos sete primeiros meses de 2026, 71,7 mil vieram das obras de infraestrutura, aumento de 25,1% em relação ao mesmo período do ano passado. A construção de edifícios adicionou 61,6 mil vagas e os serviços especializados, outras 47,1 mil. Em julho, o setor reuniu cerca de 3,13 milhões de trabalhadores formais, segundo dados do Novo Caged compilados pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).
O volume de investimentos previsto para os próximos anos aumenta a pressão sobre a formação de profissionais. O Novo PAC reúne R$ 1,9 trilhão em investimentos em áreas como transportes, habitação, saneamento e infraestrutura urbana, com R$ 1,3 trilhão previstos para o período entre 2023 e 2026.
A escassez ocorre ao mesmo tempo em que o trabalho nos canteiros se torna mais tecnológico. Digitalização de projetos, processos industrializados e maior controle de prazos e produtividade mudaram parte das competências procuradas pelas empresas.
Para Ribeiro, três conhecimentos ganharam importância na formação do técnico: domínio de BIM, familiaridade com processos industrializados e capacidade de acompanhar produtividade e prazos.
O BIM, sigla em inglês para Modelagem da Informação da Construção, reúne em modelos digitais informações das diferentes etapas de um empreendimento, permitindo integrar projeto, orçamento, planejamento, execução e gestão. Sua utilização vem sendo ampliada na administração pública federal e, em 2024, o governo instituiu uma nova Estratégia BIM BR, que prevê, entre seus objetivos, estimular a capacitação e a formação de profissionais.
No Liceu, ferramentas computacionais associadas ao BIM fazem parte da formação em Edificações desde 2010. Conteúdos relacionados à construção modular, impressão 3D e sistemas prediais inteligentes também passaram a integrar o curso.
A mudança, segundo Ribeiro, vai além do domínio de ferramentas. Com menos profissionais disponíveis e custos maiores, aumenta a pressão para que o técnico consiga organizar processos e acompanhar o desempenho das obras.
“Num cenário de mão de obra mais cara e escassa, saber planejar, acompanhar indicadores, identificar gargalos e atuar sobre a produtividade passa a ser uma competência cada vez mais importante no canteiro”, afirma.
Os dados da FGV indicam que a própria escassez já começa a interferir na organização das empresas. Entre aquelas que relataram problemas relacionados à mão de obra, 24,9% afirmaram estar modificando processos para reduzir a dependência de trabalhadores. Um ano antes, eram 18,7%.
A dificuldade para contratar também não significa que conhecimento técnico seja suficiente para conquistar uma vaga. No contato com empregadores, Ribeiro diz perceber o peso crescente de competências como comunicação, responsabilidade, capacidade de trabalhar em equipe e disposição para aprender.
“Muitas vezes, a capacidade técnica não é o primeiro critério, o ‘critério zero’, considerado no momento da contratação”, diz.
Pesquisa da ManpowerGroup divulgada neste ano aponta na mesma direção. O levantamento mostra que 77% dos empregadores dos setores de construção e mercado imobiliário no Brasil têm dificuldade para encontrar os profissionais de que precisam. Entre as competências valorizadas pelas empresas brasileiras estão profissionalismo e ética, comunicação e trabalho em equipe, adaptabilidade e capacidade de resolver problemas.
A procura chega aos estudantes antes mesmo da conclusão do ensino médio. No Liceu, que oferece gratuitamente o curso técnico de Edificações integrado ao ensino médio, alunos começam a conseguir estágios principalmente a partir do segundo ano, quando muitos completam 16 anos. No terceiro, a grade mantém as tardes livres para permitir que conciliem a formação com o trabalho.
As oportunidades se concentram em construtoras, obras e projetos, mas começam a aparecer também fora desse circuito. Ribeiro relata procura de empresas de consultoria e auditoria por jovens com formação técnica.
Em um processo seletivo recente de uma grande empresa do setor, aberto pela primeira vez a técnicos, mais de 2.200 candidatos disputaram 30 vagas. Quatro foram conquistadas por estudantes do Liceu.
Para Ribeiro, o avanço dessas oportunidades reflete a necessidade de profissionais capazes de ocupar justamente o espaço que se abriu entre o planejamento e a execução das obras.
“Isso aumenta a necessidade de técnicos em Edificações capazes de atuar como ponte entre projeto e execução”, afirma.
Com a infraestrutura liderando a criação de vagas na construção e empresas encontrando dificuldade crescente para contratar, essa faixa intermediária dos canteiros tende a ganhar importância. O desafio, segundo Ribeiro, é formar profissionais capazes de acompanhar as novas demandas do setor.